Sexta-feira, Março 02, 2007



¿Carnaval, doce ilusão¿

Todo o ano, quando o carnaval acaba, há os que riem e os que choram. Uns choram por prazer e outros por saudade, como já me dizia um tal de Cartola da Mangueira. Esse ano eu não chorei pelo rebaixamento da minha escola. Chorei bem depois, de emoção.
Recentemente tive o prazer de conhecer uma família. Uma família tradicional, cultural, cachaçal e de bem com a vida, como todas as famílias deveriam ser.
Foi na Muda, um bairro que parece não fazer parte desse planeta, mas precisamente, na Rua Garibaldi, que tive o privilégio de me sentar ao lado de pessoas fantásticas. Fui pra lá pra conhecer um Aldir sacana, diferente da figura idolatrada literariamente. Pra ver Mariana, que chorou de emoção nas ladeiras do São Carlos. Pra ver Marquinhos, presidente da única coisa que tira a paz daquele lugar, o bloco Nem Muda e Nem Sai de Cima. Pra ver a Mari, primeira dama dos botequins mais vagabundos.
E tenho como prêmio, ter saído dessa residência, me achando um membro da família. Carregando uma pilha de livros, um CD autografado, várias fotos e vontade de nunca ter saído.
Isso foi bem antes do carnaval, quando fomos eu, Simone, Celinho e Filipe, apresentar ao Aldir, a sinopse do enredo em que lhe homenagearíamos, no bloco Muvuca do São Carlos.
Isso foi bem antes, quando em uma mesa do Renascença, Aldir com a Mari, ao me cumprimentar, me disse pra sair do Estácio e crescer.
Isso foi bem antes, quando meu irmão ligou a vitrola e colocou Elis pra acalentar meu sono.
Mas o choro de emoção que ficou contido durante todos esses acontecimentos, só me inundou depois do carnaval.
Sempre que posso, vasculho a página do Eduardo Goldenberg, que também subiu o morro pra cantar o Aldir, e numa dessas espiadas pós carnaval, vi uma foto, tirada no Estácio, que merecia o prêmio maior. Mari e sua elegante simpatia ao lado da ¿Velha do Saco¿ do morro de São Carlos!
A Velha do Saco faz parte da história do bairro, assim como o Aldir, Luis Melodia, Dominguinhos, Gonzaguinha e tantos outros. Talvez até mais, pois ela nunca saiu de lá.
Eu era menino, de calças curtas no Azevedo Sodré, e ainda tinha medo daquela senhora curvada, fumando cachimbo, arrastando uma sacola e acompanhada do seu cachorro branco, que já deve ter feito uns 25 anos. Mas ao crescer e acompanhar o sorriso oferecido por ela a quem lhe cumprimentasse, esse medo transformou-se em admiração. O que dizer de uma pessoa de idade longa, com todas as dificuldades que a vida lhe ofereceu, que ainda sorri aos que passam?
Dizem que ela viveu no quilombo existente no morro. Dizem que se trata de uma preta velha materializada. Dizem que ela é rica.
Só sei dizer, que me emocionei ao ver a Sra. Blanc sorrindo ao lado da nossa Velha do Saco!
É, simpatia é quase amor mesmo. E viva o Esmeraldo!

Por Serginho Corrêa | 7:05 PM |

Aquele abraço: Quarta-feira, Janeiro 03, 2007



31 de Dezembro



Todo ano é a mesma coisa. A família se reúne pra festejar a virada do ano na praia.
O encontro é organizado pela minha vó Dita, que já passou dos noventa, mas ainda se acha cocota, dentro de um short florido, muito usado pelas menininhas na praia.
31 de dezembro é um tormento pro meu tio Hélio. Do seu bom casamento saíram cinco herdeiros, o que dá, no total, mais três netos e duas bisnetas. Minha mãe Almira tem dois filhos. Eu e meu irmão, e mais dois netos. Tia Marina só tem uma filha, mas em compensação, sete netos! Sendo que três são emprestados do seu genro, viúvo do primeiro casamento. Só minha tia Olinda, a mais velha de todos, que não contribui com a superlotação da casa do tio Hélio. O pior disso tudo, é que com a baixa população masculina na família, o trabalho físico sobra pra gente. A ¿gente¿, sou eu, tio Hélio, o meu irmão, o Junior, filho do tio Hélio e o chato do Rodolfinho, que é neto do tio Hélio, mas eu sempre achei que ele estava mais pra neta. Ô, sujeito esquisito! No aniversário da filha mais nova do amigo do vizinho da minha tia Marina, ele apareceu com o cabelinho penteado pro lado e uma calça dois números menores. Mas o espanto maior foi quando ele deu um pulo de satisfação acompanhado de um gritinho histérico, quando um rapaz, contratado pra animar a festa, tirou a roupa de garçom e ficou em trajes sumários. Tio Hélio corou! Rodolfo pai bebeu uma garrafa inteira de whisky. Minha mãe preferiu o silêncio. Vó Dita declarou: É a mocidade! É a mocidade!
Bom, fomos pro trabalho pesado. Mesa pra lá, cadeiras pra cá, carrega isso, aquilo... As mulheres ficavam na cozinha cuidando das comidas e das fofocas. E a família unida é sempre o mesmo papo: Almira, você não envelhece, heim? Marina, suas netas estão danadas! O Helinho ta ficando a cara do pai, né? Olinda, você precisa arrumar alguém!
Enquanto isso, eu levava o aparelho de som pra um dos carros disponíveis. Ainda ouvi o Rodolfinho resmungar que havia borrado seu esmalte.
O melhor nessas reuniões familiares era reencontrar as primas. Só o meu tio Hélio havia colaborado com quatro delas. E tinha a Rita. Ah, Rita! Sem dúvida, a mais bonita das primas. Começava com a longa cabeleira negra e terminava com aquelas coxas de Roberto Carlos! Só havia um problema: Vinha acompanhada por um zagueiro de quase dois metros, que apertava na marcação. Melhor continuar a carregar peso.
Vó Dita sempre cozinhou bem e achava que todos deveriam ser bons cozinheiros. Por isso ficava fiscalizando de perto trabalho das herdeiras. Metia a colher de pau ali, espetava o garfo acolá e dava o seu parecer: Mais sal aqui! Põe pimenta nesse troço! Quer me matar? Joga uma batata pra tirar o sal! E assim as tias iam levando...
As crianças ficavam no quintal correndo com os cachorros. Vez por outra a gente ouvia barulhos de algo caindo. Quando não eram os vasos de planta suspensos, eram os mais novos, iniciando o chororó.
Mas o pior mesmo, era quando chegava a hora de arrumar as coisas. Vó Dita, do alto dos sues noventa anos e lá vai fumaça, ordenava: Põe primeiro o chester! Tira o bacalhau da geladeira! Não esquece o meu manjar!
A mulherada se agitava de um lado pro outro, que nem formiguinhas levando alimentos pra rainha. Enquanto isso, os homens paravam pra tomar uma gelada. Tio Hélio abria o brinde: Que o próximo ano seja diferente! O ¿diferente¿ era desejar o fim dessa reunião anual. Meu irmão virou o copo de cerveja de uma só vez, Rodolfinho fez cara feia, disfarçou e voltou o copo à mesa. Ô, sujeito esquisito! Hélio Junior tentou falar do Vasco, mas foi logo abafado. Bacalhau só é bom com batatas! Disparou meu irmão.
Meu irmão é mais velho, solteiro por opção, flamenguista de coração. Conta pra todo mundo que já traçou a Monique Evans e que ganhou na loteria três vezes. Sonhava ser jogador de futebol, mas não levava jeito nem pra gandula. Gostava de assistir aos programas de calouro na TV, só pra colocar defeito nos candidatos. Mas tem um coração de ouro. Uma vez, fez uma panela de rabada. Os vizinhos sentiram o cheiro e se assanharam. Ele chamou os parentes. Quando todo mundo lambia os beiços, ele chamou o Pedrinho, neto da minha tia Marina, e mandou convocar os moradores de rua pro banquete. Colocou a família toda pra servi-los. Quando os convidados verdadeiros foram embora, meu irmão fez uma oração de agradecimento e mandou todo mundo pra casa. Até hoje, ele nunca mais conseguiu reunir ninguém.
Tia Olinda, chata como todas as solteironas, gritava: Crianças, vão tomar banho, ta na hora! Juliana! Seu filho fez côco! Alguém lembrou de levar papel higiênico? Cadê o meu Lexotan?
Tia Marina comanda: Não esquece os pratos e talheres descartáveis! Olha os guardanapos!
Minha mãe foi arrumar as crianças.
Vó Dita dava as últimas garfadas de aprovação.
Rodolfinho falou que a salada de passas estava di-vi-na! Ô, sujeito esquisito!
Todo mundo se acomodou nos carros, pronto pra irmos à praia. É, amigos, tudo isso pra farofar na praia. Copacabana e sua queima de fogos era o nosso destino. Escolhi a minha carona por eliminação. Desisti do carro do meu tio Hélio só por causa do Rodolfinho. Mas fui no carro do meu primo Junior e me arrependi... nele estavam, Juliana, Rita e o seu zagueiro e vó Dita!
No quesito chateação não tinha problemas. Não havia boiolice e o único problema era a minha deliciosa prima e o seu beque de forte marcação. Ledo engano. Na metade do trajeto, o ambiente fora infectado. Nossa adorável avó deixou percorrer pelo seu orifício reto-furicular, o aroma fétido dos mais podres buracos do inferno! É muito difícil mulher peidar em público, mas quando isso acontece, não ficam devendo nada aos másculos representantes da podridão caseira.
O desespero tomou conta dos passageiros: Abre a janela, pelamordedeus! Um pano! Um pano! Preciso cobrir meu nariz! Falou Juliana.
Não fui eu! Não fui eu! Confessou o zagueirão pra minha prima deliciosa, que apaixonada, disse: eu sei, meu bem, esse não é o seu cheiro! Ah, o amor...
Meu primo Junior quase vomitou ao volante. E vó Dita, responsável pelo desespero, apenas declarou: Quem está preso, quer sair!
Sábias palavras. Esse era o meu desejo. Sair!
Ainda bem que estávamos chegando...
Na beira da praia, recomeça o formigueiro. Os homens da família iam montar as tendas e armar as mesas, menos Rodolfinho, que preferiu conversar com um salva-vidas e saber as condições do mar. Ô, sujeito esquisito!
A mulherada saia do carro com rabanadas, panetones, perus, pudins, mousses e outras iguarias natalinas que resistiram a semana inteira.
Meu tio Hélio colocava o gelo no isopor. Meu irmão já havia grudado num trio de meninas, e contava pra elas como foi que a Monique Evans resolveu virar evangélica depois de ser abandonada por ele.
A minha tia Olinda colocou um maiô retro, anos sessenta. Ouvi alguém falar um ¿gostosa¿ só pra provocar. Tia Marina só queria saber a opinião a respeito de mais uma plástica. Junior arrumava o cantinho das crianças, que já haviam se espalhado pela areia.
Minha mãe ia dar o tal dos sete pulinhos e jogar flores no mar. Vó Dita continuava sua contaminação ambiental: São gases, meu filho! São gases!
Fim de ano pra gente é assim...

Por Serginho Corrêa | 12:59 PM |

Aquele abraço: Quinta-feira, Junho 15, 2006



O Copo do Mundo é Nosso!!!

Dia de jogo do Brasil em Copa do Mundo é aquele alvoroço! Bandeiras, cornetas, algazarra e todo mundo na rua.
Resolvi parar em um bar com a seguinte promoção: A cada gol do Brasil, uma rodada grátis!
Beleza, com o quadrado mágico do Parreira, iria ficar bêbado rapidinho.
Sentei e pedi minha primeira cerveja. A galera já estava eufórica quando entra o escrete canarinho em campo. O hino é executado e as pessoas colocam a mão no peito e fora do tom, fora da ordem e fora de si, cantam juntos!
O bom de assistir jogo em lugar cheio é não precisar ouvir as besteiras do Galvão Bueno.
Aos poucos, a torcida vai se empolgando com a seleção. Uma loira grita: Kaká! Lindooo!!!
Uma morena fala: Robertooo! Leva essas pernas lá pra casa!!!
E o garçom fala: Mais uma?
Percebo que bebi rápido demais a minha cerveja. Um vizinho de cadeira puxa conversa:
Em 2002 o Ronaldo jogou igual ao Cascão. Agora ele ta parecendo a Mônica!
Realmente, o Fenômeno está fora do peso. Não conseguiu executar uma jogada até agora. Alguém no fundo do bar grita: Corre, Bolinha!!! Ele deveria fazer a greve de fome do Garotinho.
Metade do jogo já passou e o esperado gol não sai. A turma desanimada já começa a vaiar as jogadas erradas. A mulherada já faz fila na porta do banheiro e minha garrafa esvaziou de novo.
De repente, Kaká acerta um belo chute e abre o placar pra seleção! Vibração total e nessa euforia, eu recebo um beijo de uma loira da mesa do lado. Obrigado, Kaká!
Os fogos espocam nas ruas junto com as buzinas dos automóveis. Fim do primeiro tempo. E recomeça a farra.
Pra mim, o Brasil tem que fazer mais dois gols para que eu não precise pagar a cerveja.
Aproveito o intervalo para olhar a rua. Incrível como esse povo se diverte quando a bola rola. Os sofridos cidadãos nem se lembram dos problemas sociais. O morador de rua está segurando sua cachaça ao lado de um nobre tijucano e ninguém está se incomodando...
Maravilhas do futebol!
Começa o segundo tempo. Torcedores mais tranqüilos, mulheres menos eufóricas e futebol mais sem graça. E fica assim o tempo todo, com exceção da saída do obeso para entrada do Robinho, que arrancou vivas da torcida.
O jogo termina e eu tive que pagar por todas as cervejas que bebi.
O Brasil pode não levantar o caneco, mas o Copo do Mundo é nosso!!!

Por Serginho Corrêa | 2:45 AM |

Aquele abraço: Quinta-feira, Maio 18, 2006


Sala de Recepção

¿Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá, não sei
Em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou¿


Da minha janela observo o sol por detrás dos barracos coloridos da favela.
Algumas pipas bailam ao vento, e o vai e vem das pessoas me lembra um formigueiro. Nem parece que ontem à noite um tiro de fuzil riscou o céu e deu início ao espocar incessante que varou a madrugada e algumas janelas vizinhas.
Na Mangueira é assim. Um misto de beleza e desespero.
Algumas crianças correm atrás de uma bola, como se quisessem agarrar o futuro.
Uns grisalhos senhores disputam em um tabuleiro, a dama, enquanto outros, nem tão grisalhos, galanteiam as damas que passam carregadas de bolsas de legumes e verduras de mais um dia de feira.
Olhando mais à esquerda, a névoa denuncia um ponto de drogas.
São jovens marionetes nas mãos dos traficantes. Prefiro mudar de visão.
Na outra extremidade, vêem-se mulheres lavando roupa e conversando. ¿Ensaboa, mulata, ensaboa...¿, no varal, lençóis branco-amarelados e uma camisa do Flamengo.
Uma mulher estende a roupa ainda com o filho no colo, que chora em lamento com a chupeta no chão de barro.
Volto meus olhos pra parte de baixo.
Parece que lá, as pessoas são mais felizes. Vivem sorrindo com o copo de cachaça na mão.
Um português bigodudo limpa da mesa os farelos de pão. Alguém começa a cantar e logo aparece um violão.
As pessoas vão chegando e parando. Pedindo um copo e bebendo. Abrindo espaço e sambando.
Vejo um crioulo com o sorriso vazio fazendo batucada com a lata de lixo. Um prato de angu passa flamejante ao lado dele. Parece festa.
As garrafas vão se multiplicando, na matemática do povo pobre. Cada copo esvaziado equivale a uma desgraça esquecida.
Viva o povo sofrido, que se diverte!
Saio da minha janela, do meu prédio, dessa minha falsa alegria, e vou ser feliz no Buraco Quente!
Mas não sou estrangeiro. Faço parte da comunidade e essa gente já faz parte de mim. Pago uma rodada pros amigos e cantarolo juntinho:
¿Mangueira, teu cenário é uma beleza, que a natureza criou, ôô¿

Por Serginho Corrêa | 1:22 AM |

Aquele abraço: Quarta-feira, Maio 17, 2006


Biquini na praia


Ela já sabia o que iria fazer no final de semana: Ir à praia!
Há muito tempo não sentia o mar. Desejava pisar na areia e brincar de ser criança mais uma vez. Acabara de entrar de férias e precisava aproveitar os 15 dias de descanso.
Nada de visitar a família. Queria um tempo só dela.
Passou no banco, pagou as contas, entrou no supermercado, encheu a geladeira. Comprou uma cadeira de praia, óculos, bronzeador e uma revista. De volta pra casa, foi experimentar o biquíni.
Uma cena torturante na frente do espelho. A peça insistia em não se encaixar no corpo acomodado pela falta de exercícios. Ao final da batalha, constatou que parecia um matadouro: Sobravam carnes!
Recorreu ao catálogo telefônico e matriculou-se em uma academia perto de casa. Era questão de honra ocupar-se naquele biquíni ao invés de comprar um número maior.
Foi ao shopping comprar calça, top, tênis e apetrechos necessários para iniciar a ginástica. No dia seguinte, pulou da cama às seis da manhã e foi correndo para a academia.
Entre esteiras, pesos, supinos e alongamentos, ela foi observando os corpos sarados ao seu redor. Chegou a invejar uma loirinha que fazia aerobox, com um corpinho perfeito de boneca Barbie. Voltou pra casa exausta e não teve disposição nem pra fazer o almoço. Pediu uma pizza pelo telefone. Somente depois da última fatia, percebeu que não estava ajudando em nada se quisesse mesmo evitar um ridículo maiô.
Todos os dias, o mesmo ritual. Corrida, ginástica, malhação. Em uma semana, já tinha perdido um pouco do peso. Tentou usar o biquíni. Ainda não dava.
Somente na segunda semana, seu corpo estava pronto para encarar o traje de banho. Tarde demais! As férias acabaram! Tanto esforço em vão. Tinha que ir por trabalho. Passou a noite chorando...
No dia seguinte, tomou um banho e foi se arrumar. Desceu com um sorriso satisfeito. Abriu sua cadeira de praia, soltou as amarras da canga e exibiu sua silhueta curvilínea dentro do biquíni florido. Ainda ouviu um assobio assanhado vindo do calçadão.
Pegou o celular e ligou para o trabalho: ¿Infelizmente não poderei comparecer hoje. Estou em estado sublime!¿ E espalhou bronzeador no seu corpo rejuvenescido...


Por Serginho Corrêa | 11:27 AM |

Aquele abraço: Quinta-feira, Maio 04, 2006



Conversa no botequim

O dia estava bonito e ensolarado. Ao menos era o que a meteorologia dizia, já que senti nuvens carregadas trovejarem impiedosamente sobre minha consciência quando disse não ao garoto que pedia esmola, ou quando chutei a lata amassada que se encontrava em meu caminho. Pouco importa. Naquele momento, eu só queria tomar uma cerveja!
Entrei no primeiro bar que encontrei no Largo do Machado. Aquilo sim era um BAR de verdade. A decoração era típica de um boteco dos mais escrotos e fedidos que possa se imaginar, com charmosas teias de aranhas em todos os cantos, inclusive nos poucos bancos disponíveis no balcão, que mais parecia uma tábua podre, há anos ali simplesmente para servir de refeição a inúmeras famílias de cupins. Pobres cupins. Ao imaginar essas criaturinhas tão meigas comendo aquilo, senti uma tristeza tão grande que afogou momentaneamente o meu coração num sentimentalismo irônico e barato, quase tão barato quanto o cigarro dos outros indivíduos que freqüentavam o estabelecimento, alguns muito alegres, falando alto com a voz rouca e gasta, abraçando-se como amantes e cuspindo amendoim vencido um no outro. No entanto, chamou-me a atenção a cena de um sujeito solitário na porta do bar, que engolia copo após copo de cerveja.
Peraí, não foi a solidão do sujeito, nem tampouco seus trajes maltrapilhos, que chamaram a minha indigna atenção: foi aquele copo, cheio, vazio, cheio, vazio, do meu objeto de desejo....
Humm... Que cerveja gostosa! Tomei o primeiro gole (ou primeiro copo, tanto faz) em segundos que pareceram eternos. Aliás, segundos que foram eternos - há de se valorizar este momento sagrado em que encontra-se a si mesmo... E a seus anjos e demônios. Seria tudo perfeito, se meus ouvidos atentos não captassem a conversa ao redor: futebol.
Ora, pois, eu bem que gosto de futebol. Sou flamenguista e já fui ver finais em estádios e já me machuquei numerosas (e dolorosas) vezes jogando futebol. Mas eles não paravam de falar de futebol. Discutiam, riam, gritavam, abraçavam-se, brigavam, colocavam a mãe no meio... O futebol parecia o centro do universo, onde Ronaldinho Gaúcho era o primeiro ministro, e Zagallo, era rei. Algum bem aventurado citou o nome de Zico. Depois do geocentrismo e do teocentrismo, agora o futebolcentrismo.
Um garoto entrou no bar vendendo chaveiros e foi ignorado. Ele carregava um radinho, onde a música de um desses MC¿s que chamam as mulheres de cachorras fazia-se ouvir. Atrevido que sou, disse ao garoto que se ele queria vencer na vida, não bastava trabalhar desde cedo, mas estudar e selecionar sua cultura, inclusive, musical. O garoto me retornou um palavrão...
Uma página de jornal falando sobre as próximas decisões do governo em relação ao gás da Bolívia e a dieta do Garotinho era incansavelmente pisoteada, enquanto eles teimavam em venerar homens que recebiam dinheiro de variadas fontes para jogar futebol e sorrir em comerciais. Jogadores que são tratados como heróis e, não desmerecendo a profissão, que ajuda muitos a saírem da miséria, mas cá entre nós: os salários são altos demais, não são? Herói é o bravo homem que ganha um ou dois salários mínimos e gasta metade dessa quantia indo ao estádio de futebol. Pensando bem, herói nada... O termo é burro mesmo.
Ok, mas era só uma conversa de bar... Pedi mais uma cerveja.
O assunto, como que num passe de mágica, mudou. Estavam discutindo qual seria a próxima garota que sairia nos comerciais da Brahma. Notei um pôster com garotas bonitas querendo ser mais bonitas, que seriam as supostas competidoras do tal concurso da Brahma, mas a direção de arte não me impressionou. Acho que podiam ter caprichado um pouco mais, se considerarmos a fortuna que a Brahma pagou à agência de publicidade. Aliás, ao invés de uma campanha para escolher a gostosona dos comerciais, poderiam fazer uma campanha para escolher qual seria a entidade beneficente que seria generosamente agraciada pela Brahma com alguns milhões que não fariam falta à cervejaria, já que seriam abatidos de impostos... E mesmo que não fossem, não fariam falta ao oligopólio da Ambev. Aliás, garanto que o retorno da campanha seria muito bom, e a marca estaria tão ou mais fortalecida do que com a campanha da garota do comercial...
Ok... Mas é só conversa de bar...
O próximo assunto foi sobre uma tal de Júlia (who is she?) e um tal de André... Sei lá, deve ser mais alguma da mídia televisiva que tanto se ocupa de alienar. É mais fácil nos enganar e nos iludir se somos todos iguais, se discutimos sobre futebol, mulheres e personagens da TV... Paguei minha conta e, graças a Deus, a cerveja era só R$ 2,50 a garrafa de 600ml !!! Muitas urras para o comerciante!!! Ao menos ele colabora para o vício, já que alcoólatras estão sempre sem dinheiro. Será que colabora para mais alguma coisa? Será que colabora ao menos com sua família? Pelo hálito de cachaça e o olhar vermelho e distante, sei não...
Saí do bar e o Sol continuava a brilhar, mas as nuvens sobre minha cabeça trovejavam mais forte que antes. Pensei no ontem, no hoje, no amanhã... Pensei na alienação, na corrupção e nas vestes bonitas que a mídia e a política se utilizam para seduzir os cidadãos, sejam bêbados de bar ou transeuntes com sede, sejam modelos novatas querendo sair em comerciais, sejam crianças que vendem chaveiros, ou sejam ainda cronistas que sonham conseguir passar sua mensagem.
Pouco importa. Era só conversa de bar, fora dali, eu sei que a realidade é muito diferente, e talvez aquele local seja realmente um refugo para os problemas diários, onde podemos parar um pouco e dedicar alguns breves minutos a trivialidades do dia-a-dia...
E pensar que eu só queria tomar uma cerveja...


Por Serginho Corrêa | 5:13 PM |

Aquele abraço: Terça-feira, Maio 02, 2006



Vila dos meus amores

Acendo um cigarro antes de passar sonâmbulo pelo mercado de corpos.
Observo os homens sedentos em busca do prazer barato, querendo disputar a atenção de mulheres despidas de roupas e pudores, com covas à mostra e falso sorriso no canto da boca enfumaçada de cigarro barato.
Alguns jovens atravessam as vielas mexendo com as meninas. Hormônios em ebulição usados de maneira incorreta.
Os bêbados continuam mais bêbados derrubando doses de cachaça vagabunda. E ainda há um vendedor de flores, que tenta arrancar uma pitada de romantismo de um grupo de engravatados, a maioria com aliança no dedo, mas sem a mínima preocupação com a companheira.
Tenho dificuldades para achar um lugar sem aquelas máquinas musicais que machucam meus ouvidos.
Em um bar, uma senhora sorri pra mim. Os anos de labuta estampados em rugas e flacidez. A roupa batida e fétida do excesso de trabalho. Ela me pede um cigarro.
Acendo o último do maço e continuo meu passeio.
As pobrezas das boates ilustradas nas lâmpadas vermelhas fazem contraste com algumas belas moças. Uma delas me chama a atenção. Não pelo belo corpo, de coxas firmes e seios fartos. Não pelos olhos claros que me refletem. Não pela longa cabeleira negra que escorre pelas costas. Não pelo vermelho intenso de seu batom. Não por sua pele morena bronzeada de sol. Não pelo seu brilhante sorriso.
Chamou-me atenção por estar sentada no colo de um senhor que deve ter a minha idade.
Como desejei estar ali naquele momento. Suas mãos deslizavam suave pelos cabelos gris de um homem eufórico! Ele poderia ser o pai dela. E eu também, mas era a última coisa que eu desejaria.
Observei a troca de carinhos mútuos até o momento em que ela o puxou pela mão e o levou para o quarto.
O tempo demorava a passar. Fechei meus olhos e imaginei-me ocupando o seu lugar. O mundo virou do avesso.
Resolvi ir embora. Não queria ver o rosto de felicidade dele e nem dela.
Ela poderia ser minha filha...
E eu me apaixonei por ela...


Por Serginho Corrêa | 2:57 PM |

Aquele abraço: Segunda-feira, Maio 01, 2006

Feitiço da Vila

Eram quase duas da manhã, quando percebi que já levantavam as mesas e cadeiras do bar.
Ergui os olhos em busca de alguém que insistisse em virar mais um copo, mas me encontrei sozinho.
Sem argumentos, paguei minha conta, acendi um cigarro e saí...
A rua estava deserta. Todos os lugares fechados.
Até que meus olhos perceberam que alguém também não queria parar de beber.
Perto do ponto de ônibus, vi um garçom servindo mais uma cerveja para um homem de aparência tranqüila. Olhei em volta e não vi outra mesa.
Apenas uma cadeira vazia ao lado do rapaz de branco, com cigarro na boca, batendo com os dedos na mesa. Pedi para sentar-me ao seu lado, e ele me ofereceu um copo.
Começamos a conversar sobre a falta de opções nas madrugadas do meio de semana, quando queremos prolongar o delicioso ondular da cerveja do copo para a garganta, da garrafa para o copo, e assim eternamente...
O rapaz, que me pareceu um pouco deformado, talvez por conta do meu teor alcoólico, insistia em deixar cheio o seu copo e dizia que buscava inspirações para uma nova canção. Disse-me que tinha que compor um samba, bem bonito para ofertar à sua amada. E continuava a tamborilar os dedos em busca da perfeita harmonia. Esses jovens que não sabem o que é boa música ficam buscando palavras difíceis achando que valorizam a composição. Resolvi perguntar se ele já havia feito algum samba. Tentaria avaliar o seu talento, e talvez pudesse ajudá-lo com alguma estrofe de ocasião. Ele apagou o cigarro e começou:
¿Quem é você, que não sabe o que diz...¿
Interrompi batendo na mesa!
Pera lá! Esse samba é do Noel Rosa, meu rapaz!
O garçom que ficara o tempo todo ao nosso lado, interfere:
¿E com quem você acha que está bebendo?¿.
Estático e assustado, primeiro resolvi verificar minha pulsação.
Teria eu morrido após o trago da cachaça? Ai, minha cirrose! Pus a mão no coração, me belisquei e todos os métodos confirmavam minha sobrevivência.
Enquanto as gargalhadas ecoavam na mesa, eu tentava entender o que estava acontecendo. Esfreguei meus olhos e percebi que não estava vendo tudo torto.
Estava mesmo diante de Noel! Mas como seria possível?
Noel acende outro cigarro, e reclama:
¿Se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa!¿
O garçom se desculpa e se afasta um pouco, ainda rindo de mim.
Olho pro fundo do copo e não vejo nenhuma explicação. Noel, de novo tamborilando os dedos me diz:
¿Aqui é a Vila, meu nobre! Do jogo de bicho, da Boulevard brasileira, da Princesa Isabel! Onde tudo acontece a qualquer hora do dia. O passado e o presente se misturam e tudo acaba em samba!¿.
Nesse momento vejo um homem acendendo a luz de um lampião que o vento apagou. No chão da rua,
um trilho corta o asfalto. Acho que voltei no tempo...
Resolvo aproveitar a situação para saber mais desse poeta do samba, mas ele me nega a informação:
¿São quase cinco da manhã! Pega o bonde pra Copacabana e vai conversar com o Carlos Drummond de Andrade.
Ele está sentado no calçadão. Eu tenho que terminar meu samba...¿.



Por Serginho Corrêa | 5:11 AM |

Aquele abraço:



Chorando baixinho

Passo bêbado tropeçando nas putas com cara de travestis, ou o inverso, já nem sei.
Ouço ao longe um palavrão, mas acho que não é comigo. A última gota do último gole ainda estava por vir, mas eu precisava de música.
O dia não foi bom. Perdi o grande amor nas pétalas do bem me quer e nem sei exatamente o motivo.
Moacyr Luz, o poeta da Guanabara, já me dizia: ¿Jogando fora a vida em mais uma bebedeira...¿ Mas, como esquecer o que não sai do pensamento?
Sei que amanhã, a dor de cabeça vai me relembrar os fatos, mas que se dane! Eu preciso ser feliz...
A Lapa ainda é o lugar ideal para afogar as mágoas. Passo por debaixo dos seus arcos e faço um pedido. Sei que não é um arco-íris e nem tampouco haverá um pote de ouro, mas não quero morrer sozinho. Ergo as mãos em lamento e peço que olhem por mim.
Ouço uma lira e penso ser anjos em coro vindo me buscar. Recolho uma rosa esquecida no chão. Aspiro ao aroma e imagino quem seria tão cruel a ponto de rejeitar um carinho.
Chego mais perto da orquestra angelical. Dentro de um boteco, quatro jovens tocam para uma pequena, porém, animada platéia. Junto-me a eles e me ofereço mais um gole de cerveja. Quanto rosto bonito! Quanta alegria!
Das cordas do bandolim saem lágrimas. Lágrimas que Jacob ensinou. A flauta completa o lamento, mas arranca de mim um sorriso. Lembrei-me do meu pai. Admirador do Choro. Homem que nunca chorou e nem me deixava chorar. Por um instante, não ouvia mais nada. Apenas observava as pessoas meneando a cabeça. Os dedos tamborilando o pandeiro, como se estivessem marcando o compasso do meu coração. O ir e vir dos copos suados e o violão soltando acordes como se nunca mais...
Nunca mais, era a palavra que insistia em gritar nos meus ouvidos!
Porquê isso tudo agora?
Porquê encerrar com lágrimas o que começou com sorrisos?
Retorno atento à música. Migalhas de Amor. Tudo o que sobrou pra mim. Farelos de uma vida mal começada.
Aplaudo comovido o final da melodia. Pago minha cerveja e antes de ir embora, peço licença para ofertar a rosa à uma jovem, que ao ajeitar o cabelo, me fez lembrar de minha amada.
Saio do bar feliz, porque vi um sorriso que me fez ter esperanças de dias melhores.
Segui na rua assobiando a melodia, e sem tropeçar nas infelizes que não têm amor...

Por Serginho Corrêa | 1:56 AM |

Aquele abraço:



Bala Perdida

27 de setembro. Acordo cedo e resolvo dar um passeio pela orla. Há muito tempo que não faço isso. A semana inteira no trabalho não me permite desfrutar das belezas do Rio. A praia é um recanto. Pela paisagem, pelas belas mulheres...
Quando era jovem, costumava ficar nos bares da Avenida Atlântica apreciando o vai e vem de pernas e covas. A cada gole do chopp, um brinde às maravilhas que meus olhos desfrutavam.
Cresci pensando em morar de frente pro mar. Lembrava Vinicius e sabia porque o poeta era grande. Aqui a inspiração floresce facilmente.
Mas, poeta, beber um¿água de coco é bem melhor aqui!
Depois que consegui realizar meu sonho, poucas vezes pisei na areia. Tinha um trabalho desgastante e no regresso, a única coisa que eu queria era dormir...
Da janela do apartamento, podia ver o sol me chamando. Sentia a brisa fresca bater em meu rosto e, timidamente, eu sorria.
Na volta, ainda recebia o beijo da lua, me dando boa noite com seu brilho de prata.
Enquanto caminhava observando as pessoas na areia, ouvi uma gritaria e várias crianças correndo em minha direção.
Fiquei assustado, sem saber o que estava acontecendo, quando de repente, uma bala acertou minha cabeça...
Era dia de Cosme e Damião...

Por Serginho Corrêa | 1:05 AM |

Aquele abraço:



<param name="enableErrorDialogs" value="0" />

¤ Sobre o carioca apaixonado

Nome: Sérgio Corrêa
Idade: 34 anos
Cidade: Rio de Janeiro

Profissão: Escritor frustrado

Todos os textos são fictícios e de autoria do autor do blog. Qualquer coincidência, é mera semelhança.


on-line







¤ Blogs de Amigos

De Poeta e Louco
Recanto das Letras
Ipsis Litteris

¤ Contos do Passado

<< Home

 Links & Sites

¤ Créditos

Comunidade Blogueira
Hosted at Blogger

Comunidade Blogueira